October 08, 2013

A IGNORÂNCIA E A SUPERFICIALIDADE SEGUNDO EXTREMOS OPOSTOS: a não-moda e a moda.

—Eis minha primeira postagem reflexiva em texto aqui.—

Se existem duas coisas nesse mundo que eu odeio, estas são a ignorância e a superficialidade. Elas podem vir de opostos extremos, ainda mais se eu considerar tudo a partir do ponto em que me encontro: o de quem trabalha com a imagem e com a moda. E nada mais justo do que apresentar a minha opinião, a partir da ótica em que vivo.


Vamos começar.

A ignorância é algo muito infeliz. Infeliz mesmo. De forma que, quando ela aparece na minha frente, eu a engulo e cuspo em forma de pena. Eu morro de pena de gente ignorante. Mas na hierarquia da minha pena, a maior vai para aqueles que sempre tiveram grandes oportunidades e, ainda assim, continuam ignorantes. Vamos a um exemplo prático.

Vestir-se mal é algo ignorante. Mas não porque você acha que tem um corpo que jamais te vestisse bem (isso é outro pensamento ignorante), também não é porque você acha que não tem dinheiro para se vestir bem (como se roupa cara fosse atestado de bom gosto e, de novo, outro pensamento ignorante). O que quero dizer é que vestir-se mal é a pior ignorância, porque é quando você simplesmente acha que se preocupar com a sua indumentária é uma frescura. E, pasmem: TODO MUNDO SE PREOCUPA COM O QUE VESTE. O mendigo, por exemplo, se preocupa em vestir a pior e mais suja roupa que lhe convenha porque, caso contrário, ninguém acreditaria em sua pobre necessidade. O homem, que se diz machão, se preocupa com a roupa que veste também, pois, por exemplo, ele jamais vestiria uma cor que deixasse em dúvida a sua masculinidade... Resumindo: no final, todos se preocupam com o que vestem, mas ao mesmo tempo não se despem da ignorância de achar que se importar com isso é frescura. E, ironicamente, todos se importam.

E é nesse vai e volta que existe o mal gosto da ignorância, refletida nas muitas formas equivocadas de se expressar e de se vestir. Às vezes sou criticado porque estar "ligado em moda" (odeio esse termo, é tão vazio) é deixar de se preocupar com coisas básicas da vida, como simplesmente ajudar ao próximo. E, ao meu ver, ajudo muito mais quando primeiramente fico consciente do que sou e do que sou capaz, para depois ficar ciente do que posso fazer para o outro. As pessoas simplesmente te julgam (ela não param de julgar e se vestir mal, rsrs) pelo simples fato de eu ser, ou me preocupar em ser, educado. E confundem isso com antipatia, logo me resumindo a um "metido, você". Porque sim, ter estilo é um viés educacional da sua personalidade, aceitem isso. E, me desculpem, educação pra mim é fundamental. É belo e ajuda ao próximo.



Mendigo na China: suas roupas também carregam códigos que informam seu objetivo. No caso da foto, muita informação de moda. — Homelees in China: their clothes are full of information. In the case on the picture above, a lot of fashion codes.
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Agora vamos à superficialidade. E aí eu vou ao outro extremo. 

Extremo não porque a superficialidade esteja em si distante da ignorância (as duas coisas geralmente coexistem em um mesmo ser. E elas conseguem se arranjar em um pequeno espaço, pois quanto mais forte essas duas beldades existirem em uma cabeça, menor essa cabeça será), mas porque se, no parágrafo anterior, eu fundamentei a ignorância a partir de quem não é ligado em estilo, agora aqui, eu abordo a superficialidade partindo de quem diz que adora a tal da Moda (coitada, só sobra pra ela).

Quem diz que adora moda, adora achar que ela tem um conceito só, né? "Ah, moda é seguir as tendências", "Moda é: estar na moda", "Moda é Chanel, Dior, adoro todos esses!"... E tem os mais atrevidos: "Moda é ser você sem se preocupar com as tendências", "Moda é ser alternativo"... É quando eu vejo isso que entendo o porquê da moda ser tão sinônimo de frescura. Sem esquecer também que em muitas vezes a pobrezinha da moda vira algo sexista: "Ah, moda é coisa de mulher e gay". E tem um monte desses por aí que diz que não liga pra moda, na tentativa (ou ilusão) de se sentirem mais... Hum hum, homens... Pura ignorância dos gays também, pois a moda é um agente social e não se aplica somente a esse ou aquele gênero.

Hoje existe uma facilidade para você fazer e publicar imagens. Isso foi o que provocou um fenômeno recente chamado: blogueiros. E aqui vou me ater apenas aos de moda. E vejam, sobrou mais uma vez para a coitada da moda sofrer com a tal modernidade. Mas brincadeiras a parte, a moda é de fato a área mais afetada por isso sim, porque ela, para existir como indústria de novidades, necessariamente precisa da mídia, basicamente em forma de imagem. Some a isso o fato da moda ficar perto da linha tênue entre o efêmero e o duradouro... De qualquer forma o jornalismo em um todo está sofrendo com os tais blogs que, por sua vez, não têm 100% de culpa. A má fama destes vêm por causa da péssima qualidade do conteúdo e logística que os tais blogueiros de "pequena" ou nenhuma formação lá aplicam. Mas aí é outra história...



BlogueirasShame.com.br: blog brasileiro especializado em cutucar blogueiras com seus erros e absurdos por aí. — BlogueirasShame.com.br: brazilian blog specializing in bloggers and their mistakes and absurds.
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Voltando ao meu segundo ponto e resumindo os dois últimos parágrafos em algo como "Uma ilusória educação de moda: as blogueiras de moda" (fui bonzinho e nem citei o termo "estilo"), eu posso agora afirmar o quanto eu odeio a superficialidade. Odeio porque ela vêm para estragar um viés cultural magnifico. Cadê a história? Cadê a arte? E o mais importante: cadê a educação nisso? Uma sociedade bem educada tem estilo. Os blogs de moda daqui nem sabem da importância da semana de arte moderna de 1922 para o Brasil (na verdade nem devem saber que semana foi essa), vão saber educar uma nova geração a desenhar o seu estilo e seus modos? No século XX, Coco Chanel contribuiu muito para história cultural da França e do mundo. Na música no Brasil, o baião, o samba e o funk carioca fez e está fazendo o mesmo para história cultural brasileira (sou fã de cultura orgânica, que nasce por nascer. Se você gosta ou não, é outra história). São nossos, bem elaborados e contribuem para formação de uma identidade brazuca. Mas e na moda? Porque não aprofundar e deixar um pouco de lado seu caráter efêmero?

Não acho que o fenômeno dos blogs de moda seja errado, ele apenas está. Alguns blogs (poucos e bons) se salvam. Começando por aqueles que abordam a moda de forma mais reflexiva (Garance Doré, Hoje Vou Assim, The Sortorialist, Selectism...). E as revistas? Essas também têm também os seus deslizes: A Vogue (Brasil) muito contribui para o lado descartável da moda quando aborda festas sociais e incansáveis instagrans de pessoas segurando (não lendo) a sua edição de setembro, ao invés de focar no conteúdo mais instrutivo. Ora, se a própria revista esquece que dentro dela temos páginas incríveis falando de arte, história, lifestyle, música e até esporte, além dos editoriais fotográficos, por que que o seu público vai se interessar? "Ah, mas isso é business, tem que vender!" Mas vender só acontece dessa forma? O público consumidor é preguiçoso ou os meios tem preguiça de ensinar? A Vogue francesa e italiana, por exemplo, são bem mais sutis nesses "micos".


Garance Doré e Scott Schuman: Bem vestidos sem esforço, casados, fotógrafos e... Blogueiros de alto nível! Referência de vida, estilo e profissional. — Garance Doré and Scott Schuman: Simply well dressed, married, photographers and... Top bloggers! Reference of life, style and profession.
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Enfim, a surpeficialidade na moda é o outro extremo da ignorância na não-moda, e ambos me irritam profundamente. Há mais ou menos um ano, criei uma sátira ao vazio "look do dia" dos fashionistas, que batizei de "Look Irritante". Ele nada mais é do que instagrans, mostrando a forma que me visto com pitadas de ironia à pífia forma das blogueiras (não só elas) de mostrar os seus looks nada autênticos em seus blogs e perfis sociais... Que por sua vez será visto por suas seguidoras, que por sua vez tem seus blogs e por aí vai...


Por uma cultura menos ignorante e superficial, mais autêntica e inovadora, eis aqui o meu desabafo.  E, antes que alguém diga alguma coisa, isso é apenas uma reflexão, não uma verdade absoluta. Portanto, pensem e adicionem.

O mundo só precisa de mais educação. Obrigado.


—Mathws Aires

Brasileiro, nordestino, mossoroensse, esquerdista. Formado em Publicidade e Propaganda, com foco na imagem, pela UERN. Fotógrafo e diretor de arte. Eterno inconformado com uma série de regras sociais. Odeia conservadorismo e ama tradição, avanços e vanguarda. Este metido é o idealizador deste site (mentxeeera, é um blog mesmo).

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ENGLISH VERSION
Translation, Carla Luana

—Here it comes my first ever reflexive post as text in here.—

If there are two things in this world I hate the most, are ignorance and shallowness. They may come from opposite extremes, even if I consider everything from the point where I am: that of those who work with image and fashion. And there is nothing fairer than to present my opinion from the perspective in which I live.

So, let's start.

Ignorance is something very unfortunate. Truly unfortunate. In a way that when it happens right in front of me, I swallow and spit it right out feeling sorry for those ignorant people. I feel especially sorry  for those who have always had great opportunities and still remain ignorant. For instance.

Dressing up badly is something ignorant. But not because you think you have a body that wouldn't be perfect for any type of clothing (that's another ignorant thought ), neither because you think you can not afford to dress well (as if expensive clothes were a sign of being tasteful making that again another ignorant thought). What I mean is that dressing up badly is the worst ignorance, because it is just when you think you worry about what you wear is pointless and trivial. But amazingly: I can tell that EVERYONE CARES ABOUT WHAT THEY WEAR... The beggar, for example, worries about wearing the worst and dirtiest clothes that suits him because otherwise, no one would believe his poor needs. The man, who portrays himself as tough and masculine, cares about his clothing also, because, for example, he would never wear a color that left in doubt his masculinity...  In the end, every person cares about what they wear, but at the same time they don't take their ignorance off in thinking that caring about the way they dress is unimportant. And, ironically, everyone cares.

And it is in this back and forth that the bad taste of ignorance is, it is reflected on the several wrong ways to express themselves and to dress. Sometimes I am criticized for being "be in fashion " (I hate that term, it is so stupid) is to stop worrying about basic things of life, as simply helping others. But from my perspective I help much more when I become aware of what I am and what I am capable of doing for others. People love to judge (they don’t stop judging you, nor dressing badly, lol) for the simple fact that I bother or try to be polite. They mistake this politeness and stuck me up on a "You cocky". Because yes, just get over the fact that having a style is an educational bias of your personality. And sorry but education is key for me. It is a beautiful thing and help others.
Now let's talk about shallowness. And then move on to another extreme.

Extreme not because shallowness itself is far from ignorance (both usually coexist in the same being. And they can be arranged in a small space, because the stronger these two beauties exist inside a brain, the smaller it will be), but because if, in the previous paragraph, I talked about the ignorance from someone who is not connected in style or fashion, now here I would like to approach the shallowness from the perspective of whomever claims to love fashion (and the poor thing, again on the spotlight).

One who says to love fashion, believe that there is only one concept, huh ? "Oh, fashion is to follow the trends", " Fashion is: to be trendy ", "Fashion is Chanel, Dior, I love all these!"... But there is also the most daring who goes like: "Fashion is being yourself without worrying about trends" , "Fashion is to be away from the mainstream"... It's when I see it I can understand how fashion is so synonymous of being trivial. One should also recall that often fashion is seen as something sexist: "Oh, fashion is a women’s and queer thing." And there is a lot of those out there that says that does not care about fashion, attempting (or illusion) to feel they are they are more... Cof cof, macho... Sheer ignorance of the gays also because the fashion is a social agent and does not apply only to this or that genre.

Nowadays is much easier for you to make and publish images. This is what caused a recent phenomenon called: bloggers. I will just stick it to fashion. And look, once again fashion suffers from such modernity. Fashion is in fact the most affected field by this since it relies on midia to exist as industry news, primarily in the form of image. Add that to the fact that the fashion stay near the fine line between the ephemeral and the lasting... Anyhow, journalism is also a victim of blogs, which to their defense are not 100 % guilty of such. The bad reputation of these come from the poor quality of the content and logistics that such bloggers with "little" or no training apply there. But that's another story...

Going back to my second point and summarizing the last two paragraphs on something like "An illusory fashion education: the fashion bloggers" (I was nice and even quoted the term "style" ), I can now say how much I hate shallowness. Absolutely hate it because it spoils a magnificent cultural bias. Where's the history? Where's the art? And most importantly: where is the education? A well educated society has style. The fashion blogs from here do not know the importance of modern art week of 1922 to Brazil (in all reality they probably don’t even know if there was such a week), will know how to educate a new generation to design their style and their manners? In the twentieth century, Coco Chanel contributed greatly to the cultural history of France and the world. In talking about music in Brazil, rhythms like baião, samba and funk carioca has been doing the same for the history of brazilian culture (I am a fan of what is organic that grows naturally. Whether you like it or not, it is another story). They are our well developed styles that contribute to the formation of a brazilian identity. But what about in Fashion? Why not going deeper and leave behind its ephemeral character?

I do not think the phenomenon of fashion blogs of being as wrong, it is just currently wrong. Some blogs (and a few good ones) are saved . Starting with those that cover the fashion in a more reflective manner like Garance Doré, Hoje Vou Assim, The Sartorialist, Selectism... And what about the magazines? These also have their slips: Vogue (Brasil) has contributed greatly to the disposable side of fashion when it addresses social parties and tireless instagrams posts of people holding (not reading ) its September issue, rather than focusing on a more instructive content. Now, if the magazine itself forgets that inside its issue there is incredible articles about art, history, lifestyle, music and even sports, besides the amazing fashion photo editorials why its audience will be interested? "Ah, but that's business and it must sell!" As it turns out selling doesn't happens just that way? Are the consumers lazy or is the media too lazy to teach? The french and italian Vogue, for example, are much more subtle on these "slip-ups".

Anyway, the shallowness in fashion is the other extreme of ignorance in non-fashion, and both of which annoy me deeply. Roughly a year ago, I created this satire from the empty "look of the day" of the fashionistas, that I baptized "Look Irritante" (in English it's like "annoying look"). It is nothing more than instagrams shots showing the way I dress with a touch of irony to the insignificant way of bloggers (not only them) to show their anything-but-authentic-looks on their blogs and social profiles... Which in turn will be seen by their followers, who in turn have their blogs and so on...
So this is my rant, for a less ignorant and superficial, more authentic and innovative culture. And before anyone says anything, this is just a reflection, not an absolute truth. So think about and absorb it. 

The world just needs more education. Thank you.


—Mathws Aires

Brazilian, from Mossoró, lefties. Graduated in adverting, focusing on image, by the state university UERN. Photographer and art director. Eternal unhappy with a sort of social rules. Hates conservatism and love tradition and cutting edge advances. This cocky is the creator of this site (joooke, it is a blog at all).